13 de maio de 2018 às 02:00

Ateliê improvisado em Paris criou até 1 milhão de cartazes em 1968

[RESUMO]?No calor das mobilizações de maio de 1968, estudantes e artistas ocuparam a Escola de Belas Artes, em Paris, e formaram o Ateliê Popular. O coletivo produziu centenas de cartazes com imagens simples e slogans curtos, e parte da produção integra e

[RESUMO]?No calor das mobilizações de maio de 1968, estudantes e artistas ocuparam a Escola de Belas Artes, em Paris, e formaram o Ateliê Popular. O coletivo produziu centenas de cartazes com imagens simples e slogans curtos, e parte da produção integra exposição comemorativa na faculdade.

Em maio de 1968, a França estava afundada numa crise social e política que culminou com a maior greve geral que o país já viu. Em Paris, estudantes e policiais travavam guerra violenta pelas ruas; em todo o território nacional, fábricas e repartições públicas eram invadidas, e mais de 7 milhões de trabalhadores cruzaram os braços à espera de solução para suas reivindicações. 

Nesse caos, um grupo formado por algumas dezenas de artistas produzia uma torrente de obras das mais simples, mas que entrariam para a história como o testemunho gráfico de um movimento que mudou a sociedade francesa para sempre e a colocou na vanguarda das lutas sociais da segunda metade do século 20. 

Devido à importância da arte produzida no período, a Escola das Belas Artes de Paris organizou a exposição “Imagens em Luta: A Cultura Visual da Extrema Esquerda na França (1968-1974)”, baseada, principalmente, nos pôsteres produzidos no calor dos acontecimentos de 1968. A mostra retraça não só a efervescência criativa mas também a inédita aproximação entre artistas, universitários e classe operária. 

“Foi um momento em que tudo que era político se transformou em algo cultural. Anos em que se forjou uma consciência política e artística muito forte, uma aspiração a mudar a vida guiada pelo pensamento de Foucault, Deleuze, Félix Guattari e outros”, afirma o historiador Philippe Artières, curador da exposição.

A década de 60 tinha visto surgir uma leva de intelectuais franceses bastante engajados politicamente. Além dos acima mencionados, filósofos como Jean Baudrillard, Jacques Derrida e Simone de Beauvoir também contestavam a ordem estabelecida e a sociedade do pós-guerra, influenciando desde a luta por direitos civis nos EUA até revoluções de esquerda na América Latina.

A Belas Artes estava a pouco mais de 1 km da Universidade Sorbonne, em torno da qual ocorriam confrontos diários entre policiais e estudantes. Em 14 de maio, ela foi ocupada em solidariedade à greve geral convocada na véspera e que pararia a França por mais de duas semanas. 

A paralisação atingiu inúmeros setores: operários, funcionários dos correios, professores, servidores públicos, caminhoneiros, agricultores e pescadores pararam de trabalhar. Na segunda metade do mês, o número de grevistas chegaria a 9 milhões.

Alunos, ex-alunos e artistas que viviam em Paris ou nas cercanias da capital se acomodaram no prédio da Belas Artes e começaram a se organizar. Criou-se uma enfermaria, um refeitório e uma creche para cuidar dos filhos de quem participava. Também foi decidido que uma assembleia geral aconteceria todas as noites, e o ateliê de litografia da escola foi renomeado Ateliê Popular. 

Logo na entrada do espaço era evidente sua vocação política de esquerda. Lia-se num cartaz: “Ateliê Popular: Sim. Ateliê Burguês: Não”. As regras de limpeza, por exemplo, eram ditadas pela luta de classes, como se via em outro aviso na parede: “Camaradas, manter o ateliê limpo é também participar das lutas do povo”.

O pintor Gérard Fromanger foi um dos primeiros a se juntar à ocupação. Ele lembra que alguém sugeriu fazer uma litografia para vender e ajudar a financiar o movimento â?”a técnica, um tipo de gravura com criação de desenhos sobre uma matriz de pedra ou metal, permite que se façam cópias múltiplas da imagem. 

“Eu fui levar as cópias até a galeria de um amigo perto da escola. Mas, quando saí na rua, um grupo de estudantes me viu, arrancou os cartazes da minha mão e foi colar nos muros. Naquele momento, vimos que era aquilo que deveríamos fazer”, conta Fromanger. 

A litografia, um processo lento e pouco prático, foi substituída pela serigrafia, técnica mais simples e que permitia um número maior de impressões em menos tempo. 

A fórmula de produzir imagens simples, com slogans curtos e finalidade utilitária, deu origem à fábrica do Ateliê Popular, uma máquina de propaganda visual que produziu entre 600 mil e 1 milhão de cópias de centenas de cartazes diferentes. 

A penúria causada pela greve era resolvida com a ajuda dos próprios trabalhadores: papel e tinta eram confiscados de gráficas ocupadas. 

O trabalho do Ateliê Popular ganhou importância no movimento. Todas as noites, manifestantes de várias partes da França explicavam suas lutas diante da assembleia geral e encomendavam cartazes. Em seguida, as ideias eram votadas. 

“Se fossem aprovadas, passávamos a noite fazendo maquetes e, no dia seguinte, na assembleia geral, apresentávamos [os trabalhos]. Votávamos ?sim? ou ?não?. Para cada cartaz, havia 15, 20 projetos”, diz Fromanger.

O pintor Pierre Buraglio, na época militante maoísta e espécie de comissário político da ocupação, também se lembra daquele processo. “O que faz a força dos melhores cartazes de 68 é a adequação perfeita entre palavra de ordem e imagem. Não havia a necessidade de ser profissional”.

Embora a produção do ateliê atendesse algumas demandas estudantis e expressasse seu desejo por liberdade, ela se concentrava em causas sociais e operárias. Direito de imigrantes, igualdade de gênero e situação dos manicômios estavam entre os temas abordados nas discussões.

O general Charles de Gaulle (1890-1970) era o alvo preferido. Nas imagens dos artistas, o presidente â?”que ocupava o cargo desde 1959â?” aparecia geralmente de perfil, facilmente reconhecível pelo nariz protuberante e o quepe militar. 

Para a juventude francesa, ele representava uma sociedade atrasada e patriarcal. De Gaulle resistiu à pressão de 1968, mas renunciou à Presidência em abril do ano seguinte.

Polícia, capitalismo, imperialismo e imprensa tampouco eram poupados. Uma das imagens mais famosas do período é a de um policial da Companhia Republicana de Segurança empunhando um cassetete e um escudo no qual se lê “SS”.

A comparação com a organização paramilitar da Alemanha nazista tinha nascido no pós-guerra, num protesto de operários comunistas, mas é o cartaz do Ateliê Popular que é lembrado e reproduzido até hoje na França.

Naquele ambiente anticapitalista, a autoria dos cartazes era vista como uma aceitação da concepção burguesa da arte. A única forma de romper com isso era pela produção coletiva. “Obras anônimas são fortes, pois elas dizem: não somos importantes, o que é importante é nosso gesto de artista”, afirma Artières.

Apesar da precaução antiburguesa, o sucesso da produção começou a causar problemas. Com o aumento da popularidade, cartazes eram arrancados das paredes e vendidos a colecionadores até nos EUA, um escândalo para quem via nos americanos o demônio imperialista a ser abatido a qualquer preço.

“Fizemos uma investigação e descobrimos que dois estudantes roubavam os cartazes se passando por membros de comitês de ação e os entregavam para um comissário de bordo da Air France no [aeroporto] Orly. No dia seguinte, os cartazes estavam em Nova York”, diz Fromanger.

A publicidade tampouco demorou para se apoderar da utopia daquele mês. “Maio de 68 é o inspirador da publicidade moderna na França”, afirma Jacques Séguéla. O artista, um dos maiores publicitários do país, tinha 34 anos na época e identificou uma revolução de costumes se desenrolar diante de seus olhos. Decidiu abrir sua própria agência.

Em 1981, inspirado em 68, Séguéla ajudou a eleger o primeiro presidente socialista da França â?”foi ele quem criou o cartaz de campanha de François Mitterrand no qual o candidato figura diante de um fundo bucólico sob o slogan “A força tranquila”. 

“Apesar de todos os meus clientes serem contra aquela revolução, eu adorava a poesia contida nos slogans”, conta o publicitário. 

Sete anos depois, repetiu a dose: “A eleição de Mitterrand nada mais é que o espírito de 68 colocado em prática”, afirma.

Se a revolução sociocultural fez de maio de 68 um prato cheio para publicitários ávidos por uma nova linguagem, ela também levantou bandeiras que passaram a ser vistas com frequência na produção artística.

Vários integrantes do Ateliê Popular viriam a produzir obras intrinsecamente ligadas à causa operária e aos movimentos sociais. Em exposição na Belas Artes, uma obra de Bernard Rancillac de 1970 mostra Mao Tsé-tung acompanhado de quatro dirigentes do Partido Comunista francês que empunham “O Livro Vermelho” enquanto saúdam o desfile dos 20 anos da Revolução Chinesa. 

O espanhol Eduardo Arroyo, o francês Rancillac e Fromanger criaram a chamada escola parisiense da nova figuração com o mesmo espírito revolucionário e anticapitalista. 

Muitas das bandeiras usadas como motivo na arte de 1968 passaram a ser adotadas por artistas diversos nas décadas que se seguiram: feminismo, direitos dos homossexuais, igualdade para trabalhadores imigrantes, liberdade sexual, crítica ao sistema capitalista e ao imperialismo americano se tornaram temas recorrentes para artistas de todo o mundo e testemunham a marca que o período deixou na sociedade.

Naquela época, porém, sem estratégia de tomada de poder, o movimento perdeu fôlego. As ocupações iniciadas em maio e os confrontos com a polícia continuaram até o final de junho. No dia 27, o batalhão de choque entrou na Belas Artes para desocupar o Ateliê Popular, mas o encontrou vazio: um policial tinha avisado os estudantes, que deixaram o local carregando o que podiam.

Os cartazes de maio de 68 não mostram armas e seus slogans não conclamam a revolução pela violência.

As lutas políticas e sociais traduzidas naquelas serigrafias são, ao contrário, peças de lirismo gráfico que reúne a simplicidade e o humor insolente de jovens que tinham crescido num país devastado por uma guerra mundial e por conflitos coloniais traumatizantes. Uma sociedade antiquada, representada pela figura patriarcal do general De Gaulle, e que não pertencia mais ao seu tempo. 

“Nós mudamos o mundo, mas nunca quisemos o poder. Isso não nos interessava, porque não mudaria nada. Poderíamos ter tomado o poder. Era só entrar no Palácio do Eliseu, não havia ninguém lá. Nós preferíamos o poder em todos os lugares, e não o poder central. Esse era o espírito de 68, mudar o mundo em todos os cantos”, afirma Fromanger.

Cinquenta anos depois, no início deste mês, uma passeata reuniu milhares de pessoas em Paris contra políticas econômicas e sociais do governo.

Não houve violência; nas mãos dos manifestantes e nos muros, surgiram alguns dos cartazes mais emblemáticos produzidos pelo Ateliê Popular em 1968 â?”no lugar do general De Gaulle, o presidente Emmanuel Macron. Sinal de que os anos passam, mas a luta continua. 

Mário Camera, 38, jornalista, vive há 13 anos em Paris.

Fonte: FOLHA

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