10 de junho de 2018 às 02:00

Autor afegão premiado conta como fugiu após invasão comunista; leia

[SOBRE O TEXTO]?O trecho nesta página integra ?A Balada do Cálamo?, livro sobre a trajetória de exílio do autor, que nasceu em Cabul, fugiu para o Paquistão após a invasão soviética em 1984 e se refugiou em Paris por quase 20 anos. Rahimi, que já ganhou o

[SOBRE O TEXTO]?O trecho nesta página integra “A Balada do Cálamo”, livro sobre a trajetória de exílio do autor, que nasceu em Cabul, fugiu para o Paquistão após a invasão soviética em 1984 e se refugiou em Paris por quase 20 anos. Rahimi, que já ganhou o Goncourt, prêmio máximo da literatura francesa, estará em São Paulo para o lançamento da obra pela Estação Liberdade na quinta (14), às 19h, na Livraria da Vila da Fradique Coutinho.

No começo? 

É noite. 
E o verbo continua ausente. 
Isso me dá uma estranha sensação, talvez uma angústia, aquela de chegar ao abismo de um espaço-tempo onde se cruzam solidão e desejo, como o estado daqueles deuses desaparecidos nos terrores do vazio antes da Criação. 
Estou em meu ateliê, 
um território íntimo onde se refugiam meus desejos inconclusos; 
uma escrivaninha por intermitência, onde silenciosamente se inscrevem meus sonhos e meus pesadelos antes que se tornem lembranças longínquas, voláteis. 
Diante de mim, na parede, uma galeria de fotos e de reproduções pictóricas que expõe seres imobilizados em sua errância. Corpos banidos, caçados, perdidos? 
O exílio é deixar seu corpo para trás, dizia Ovídio. 
E, junto com seu corpo, suas palavras, seus segredos, seus gestos, seu olhar, sua alegria? 
Essas imagens, que eu recolhi e pendurei há um ano, compõem um mosaico de rostos e de corpos â?”conhecidos ou desconhecidos, imaginários ou nãoâ?”, todos, como eu, condenados, pela História, à incerteza do exílio. Cada olhar suspenso é um romance; cada passo perdido, um destino. Esses seres migradores, errantes nas margens da terra, suspensos na nebulosa espiral do tempo, veem-me procurar desesperadamente minhas palavras, meu sopro, a fim de poder descrever seus sonhos, contar seus périplos, carregar seus gritos? 

O desastre que os expulsou de sua terra natal recusa-se a ser nomeado? Ele censura a voz, evacua as palavras. 
A palavra está em errância. 
E o livro, sua terra prometida, recusa-se a acolhê-la. 

Essas imagens do desastre têm o poder sufocante de uma cicatriz que reanima, a cada vez que para ela se olha, a dor experimentada no instante da ferida. Uma sensação estranha, impossível de ser expressa por adjetivos e por advérbios. Ela deixa a tela de meu computador vazia. Tão vazia quanto meu crânio. 

Eu contemplo essas fotos e esses quadros como minhas próprias cicatrizes. 

Desterrado como eles, 
tenho o mesmo passado, 
a mesma sorte incerta, 
as mesmas feridas? 

Entretanto, há uma imagem que falta aqui, na parede. Mas ela assombra meu espírito errante. Uma imagem, uma única. Aquela de uma extensão deserta, drapeada de neve, um espaço suspenso nos tempos; um momento-chave em minha vida que sempre relato, por todos os cantos. E, a cada vez, tenho a impressão de que o conto pela primeira vez, mesmo se o rumino com os mesmos vocábulos, as mesmas frases, os mesmos detalhes? É meu salmo. 
Essa imagem segue-me por todos os lados, até mesmo aqui, esta noite, em meu ateliê, como uma folha branca que jaz diante de mim, sobre minha escrivaninha. Sua brancura reflete o vácuo de minha existência proscrita; ela é a expressão de minha experiência originária do exílio: 

Era noite, uma noite fria. Surda. Tudo o que eu ouvia não era senão o ruído feltrado de meus passos gelados sobre a neve. Eu fugia da guerra, sonhando com um alhures, com uma vida melhor. Silencioso, ansioso, aproximava-me de uma fronteira na esperança de que o terror e o sofrimento perderiam meus traços. Uma vez na fronteira, o passador disse-me para lançar um último olhar para minha terra natal. 
Parei e olhei para trás: tudo o que vi não era senão uma extensão de neve com as marcas de meus passos. E, do outro lado da fronteira, um deserto semelhante a uma folha de papel virgem. 

Sem traço algum. Disse a mim mesmo que o exílio seria isso, uma página em branco que seria preciso preencher. Uma estranha sensação apoderou-se de mim. Insondável. Não ousava nem avançar nem recuar. Mas era preciso partir! Mal havia ultrapassado a fronteira e o vazio me aspirou. É a vertigem do exílio, murmurei no âmago de mim mesmo. Não tinha mais nem minha terra sob o pé, nem minha família nos braços, nem minha identidade na bolsa. Nada. 

Cá estou, trinta anos depois, exausto, ainda diante desta página em branco. Como traçar ali minha vida? Não sou capaz de fazê-lo. Há meses que me enterrei neste ateliê para escrever este livro sobre o exílio. 
Impossível. 
A angústia. 
Uma angústia ritual, imutável; uma provação excitante e lancinante que experimento a todo instante em que me ponho a escrever. Sempre a mesma história, como se fosse meu primeiro livro, como se eu ultrapassasse pela primeira vez uma fronteira, abandonando uma terra por outra, uma vida por outra, um amor por outro? 
Minha errância é eterna. 
Minha angústia, tal qual. 

Minha mão, tão trêmula quanto meus passos por ocasião da travessia das fronteiras, toma subitamente de uma pluma metálica, escorrega sobre o papel virgem, traça com incerteza um traço, desajeitadamente vertical. 

Isso não se parece, inicialmente, com letra alguma, 
com forma alguma, com nada! 
A não ser? 
talvez, 
?com o primeiro traço que uma criança esboça como que para revelar a primeira letra da primeira escrita que a humanidade soube traçar. Ouço Rabindranath Tagore, grande poeta indiano, endereçar-se a essa criança: 

Você veio para escrever as histórias 
jamais concluídas de nossos pais na escrita 
escondida das páginas de nosso destino? 

Você dá a vida aos cenários esquecidos 
para formar novas imagens? 

Esse traço leva-me de volta à minha infância, a meus primeiros anos de escola em Cabul, à minha eterna angústia diante de uma tabuinha de madeira pintada de preto, vazia como o universo antes do Verbo. 
Meus pequenos dedos trêmulos apertavam o cálamo de cuja ponta escorria giz líquido, branco, do qual exalava um fraco odor de cal. Eu esperava, como todos os meus colegas, o grito trêmulo do mestre de caligrafia: 

Alef! 

Em seguida, ele nos pedia para traçar um círculo cujo diâmetro seria a letra alef, como o eixo que liga os dois polos da esfera terrestre, precisava-nos o mestre. 

Enquanto nos aplicávamos em bem executar suas instruções, o mestre continuava sem se preocupar com nossa idade, com nossa capacidade de compreendê-lo. Ou, então, era eu quem não compreendia nada! Hoje, agora, ao escrever, repenso nesses instantes, naquilo que o mestre teria podido nos dizer. 

Atiq Rahimi é um escritor e cineasta de origem afegã.

Leila de Aguiar Costa, professora de letras da Unifesp, já traduziu ao português Stendhal, Balzac e Maupassant.

Fonte: FOLHA

comentários

Estúdio Ao Vivo