01 de julho de 2018 às 02:00

Intuições morais, em locais e épocas diferentes, são mais parecidas do que se imagina

Tem gente que gosta de se descabelar por causa do ?relativismo? que teria tomado conta do mundo nas últimas décadas (frequentemente é o mesmo pessoal que faz juras de ódio eterno ao ?globalismo?, seja lá o que eles queiram dizer com isso).

Tem gente que gosta de se descabelar por causa do “relativismo” que teria tomado conta do mundo nas últimas décadas (frequentemente é o mesmo pessoal que faz juras de ódio eterno ao “globalismo”, seja lá o que eles queiram dizer com isso).

Para os mais preocupados, estaríamos entrando numa espiral doida de esquecer a diferença entre o certo e o errado, entre o belo e o horrendo. Nas palavras de uma clássica paródia da internet, “essa juventude está muito mudada” â?”e vai nos levar para o buraco.

Não nego que a preocupação talvez seja positiva, mas temos bons motivos para acreditar que ela ultrapassa os limites do razoável, ou mesmo os do possível. Alguns podem até dizer, da boca para fora, que tudo é relativo, mas há um núcleo surpreendentemente sólido para as noções humanas do que é correto. As pessoas propõem, no máximo, variações em torno desse núcleo, mas aboli-lo por completo não costuma passar pela cabeça de sujeitos normais.

A existência desse cerne comum da moralidade tem apoio considerável da análise comparativa das mais variadas culturas do passado e do presente, em especial as formadas por CCNs (caçadores-coletores nômades), a “versão 1.0” das sociedades humanas (já que passamos mais de 95% do nosso tempo de existência como espécie adotando esse estilo de vida).

Segundo tal perspectiva, refinamos nossas noções do certo e do errado tentando resolver os problemas da vida conjunta em pequenas comunidades móveis com tecnologia da Idade da Pedra. Nos últimos 10 mil anos, construímos vilas, cidades e megalópoles, fomos à Lua e rachamos átomos ao meio, mas ainda nos valemos da “caixa de ferramentas” moral muito útil (e, eu acrescentaria, essencialmente verdadeira) dos CCNs.   

Em seu livro “The Righteous Mind” (“A Mente Justa”, ainda sem versão brasileira), o psicólogo americano Jonathan Haidt propõe que cinco gavetas básicas formam essa caixa de ferramentas: “cuidado” (para com os mais fracos, crianças etc.); “justiça” (contra trapaceiros); “lealdade” (para garantir que ninguém traia o grupo); “autoridade” (para que líderes sejam obedecidos); e “santidade” (que garante que certas coisas sejam vistas como sagradas).

Para Haidt, a tragédia das polarizações políticas modernas (para usar os termos lamentáveis do debate público brasileiro atual, entre “coxinhas” e “petralhas”, digamos) é que grupos mais à esquerda enfatizam “cuidado” e “justiça”, enquanto conservadores proclamam que “lealdade”, “autoridade” e “santidade” são igualmente importantes.

Concordo em parte com o diagnóstico, mas acho que ele enfatiza demais as diferenças entre os lados.

De sua parte, conservadores dificilmente vão ser contra “cuidar” de quem passe fome, ainda que questionem se isso é papel do Estado. Do outro lado das trincheiras, esquerdistas não defendem o casamento gay porque querem profanar a “santidade” do casamento hétero, mas porque desejam que algo dessa aura caiba a casais do mesmo sexo (uma aura que também pode estar presente em uniões “seculares”, não religiosas).

O resumo da ópera é simples: ao contrário do que dizem os memes, liberal também é gente; comunista quase nunca come criancinha; a esmagadora maioria dos padres e pastores jamais cogitaria embolsar o dízimo; e raríssimos muçulmanos apelam para o terrorismo (para sorte de todos nós, já que existe 1,6 bilhão deles no mundo).

E isso, como dizia o velho Gandalf, é um pensamento encorajador.

Fonte: FOLHA

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