15 de abril de 2018 às 02:00

Jardim São Luis, na extrema zona sul, ganha projeto de restaurante-escola

MARÍLIA MIRAGAIA
SÃO PAULO

"Cultura de resistência" está escrito bem pequeno, entre desenhos de sereias e grafites, na frente de um prédio de três andares no Jardim São Luís. O bairro, no extremo sul de São Paulo, está na região que já foi a mais violenta da cidade e que ainda tem altos índices de homicídios.

No começo de maio, o lugar vai começar a receber atividades para jovens. Não têm a ver com música ou pintura, mas, sim, gastronomia. "Que no Brasil não é reconhecida como cultura", diz Edson Leitte, 34, idealizador do restaurante-escola Sonego Bistrô, que vai funcionar ali.

Formado em serviço social, ele ganhou experiência trabalhando em cozinhas dentro do país (como do Clube Pinheiros), em navios e também em Portugal, onde morou por sete anos e preparava comida mediterrânea.

Foi em 2006 que ele reuniu €300 para sair do Brasil, numa época de ação intensa de grupos de traficantes. Chegou a ouvir "da assistente do Instituto Sou da Paz que encontrar corpos na rua não era normal, a gente não devia se acostumar", lembra.

O prédio da Sonego Bistrô e da Escola Periférica de Gastronomia demorou três meses para ser reformado, com a ajuda de parcerias como a da LC Restaurantes, empresa de refeições coletivas que deve manter um convênio de estágio com a instituição. Quando estiver na ativa, o estabelecimento vai, aliás, funcionar para almoço, happy hour e jantar -até com uso de pancs (plantas alimentícias não convencionais).

Alunos se revezarão na cozinha e também para produzir a merenda das crianças da Orpas (Obras Recreativas, Profissionais, Artísticas e Sociais), ONG vizinha que funciona como escola e incubadora de projetos sociais.

Edson está à frente da formação gastronômica do projeto, mas deve contar com a presença, ao menos para aulas pontuais, de chefs como Bel Coelho, do Clandestino, e Rodrigo Oliveira, do Mocotó. "E quem é que vai dizer que não temos um selo do MEC (Ministério da Educação)"?, diz.

O programa de ensino tem aula de gestão, empreendedorismo, administração e também uma formação pessoal à cargo da psicóloga Adélia Rodrigues, 31, coordenadora.

A turma foi selecionada entre 200 candidatos, escolhidos depois de descrever, em uma redação, sua relação com a comida. Uma delas é Aline de Aquino Masiero, 28, que diz nunca ter parado em um emprego por mais de seis meses antes da cozinha. Agora, além de seu bufê, tem planos (com metas) de abrir um disque-marmitex -talvez um restaurante.

"Era um sonho antigo que eu vou realizar. Tem cheiro melhor que bife frito com alho? É melhor que Givenchy", diz.

Algumas aulas, como a que apresenta tipos de faca, estão acontecendo provisoriamente numa sala da Orpas. Os alunos meditam por alguns minutos antes do início e observam Edson fazer um torneado numa cenoura e um corte brunoise (em pequenos cubos) em legumes. "Deve ter sido inventado por um tal de Bruno. Eles são meio egocêntricos na gastronomia", alguém brinca.

iFOOD DA QUEBRADA

Antes da aula começar, logo na entrada da Orpas, mulheres seguravam um engradado de cerveja. Skol, Amstel, Budweiser -não era nenhuma delas e, sim, a Benedita, marca feita só por mulheres, que comandam o Bar Delas, ali nos arredores.

O estabelecimento é um dos participantes do aplicativo Gastronomia Periférica (disponível em IOS e Android), outra ideia de Leitte, que reúne cerca de 70 casas, entre lanchonetes, bares, restaurantes e comércios de ruas da região, que foram mapeados e visitados antes.

O plano era valorizar a produção dali e fazer girar a economia local. O projeto deu outra cria no ano passado, quando aconteceu o Festival da Quebrada, uma feira de gastronomia com patrocínio do iFood - e que vai se repetir em junho, com suporte da agência Foodpass.

E a visibilidade fez com que o grupo fosse convidado a participar de outras feiras, como a Plana e, logo mais, a Rosenbaum em Pinheiros -agora, também com a presença dos alunos, que já estão treinando.

Fonte: FOLHA

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