08 de julho de 2018 às 02:00

Meu amigo não consegue entender nossa limitação em fazer analogias

Depois de ouvir dizer que em tempos de crise o leitor perde o interesse pela ficção, em favor de livros que lhe expliquem (de preferência em linguagem e raciocínio acessíveis, com respostas rápidas, práticas e objetivas) o caos em que está metido, um amig

Depois de ouvir dizer que em tempos de crise o leitor perde o interesse pela ficção, em favor de livros que lhe expliquem (de preferência em linguagem e raciocínio acessíveis, com respostas rápidas, práticas e objetivas) o caos em que está metido, um amigo romancista decidiu aventurar-se numa parábola admonitória que tivesse a urgência de uma revelação sociológica: uma ficção com efeito de antídoto de fake news.

Meu amigo está inconformado com a fragilidade da lógica humana. Não se conforma que a troca de nome e contexto seja suficiente para que os homens cometam os mesmos erros. Perde a cabeça só de pensar que basta tirar as coisas do lugar para que exemplos históricos deixem de servir de caução, uma lacuna cega se interponha entre causa e efeito e nos tornemos mais uma vez inconsequentes. 

Meu amigo diz que é nessa lacuna que o pior sempre ocorre, sob a forma de burrice, má-fé ou irresponsabilidade, e que mais cedo ou mais tarde as consequências virão cobrar a conta.

Meu amigo não entende por que, quando tentamos convencer alguém da maldade do inimigo, não hesitamos em recorrer à imagem inequívoca do mal absoluto, a Hitler por exemplo, mas que basta lhe dar novas roupas para que, chamados a escolher entre Hitler e uma alternativa, sejamos levados a optar pelo primeiro. 

Meu amigo não consegue entender nossa limitação em fazer analogias. Diz que só entendemos situações em contextos específicos e, mesmo assim, como se fossem fatos inéditos, para os quais situações passadas e análogas pouco importassem.

É verdade que somos vítimas fáceis de silogismos e sofismas, mas para ele o pior é que não se trata apenas de um problema de educação. Estamos falando de gente educada. 

Temos aí um problema psicológico e de memória. Somos capazes de reter os nomes e de atribuí-los ao que nada tem a ver com as coisas às quais eles foram atribuídos na origem, ao passo que cunhamos nomes novos e inocentes, como se nos surpreendêssemos com algo completamente inédito, para o que já havia sido exaustivamente nomeado.

Segundo meu amigo, recorremos a “lavagens semânticas” (como se, a exemplo dos computadores, bastasse apertar o botão “reiniciar” para recomeçar do zero) para sustentar nosso otimismo. Assim como também havia judeus entre os alemães que no início apoiaram o nazismo contra o comunismo, apoiamos o fascismo, mas sem reconhecer o nome e sem associá-lo a consequências históricas e suicidas. 

Rechaçamos todas as tentativas de nos identificarmos com vetores ou eventuais vítimas do fascismo, como se lidássemos com algo totalmente novo e promissor no combate a um bode expiatório qualquer que, neste caso, inversamente, insistimos em nomear por um anacronismo histórico: comunismo, por exemplo, que de comunismo não tem nada.

Meu amigo está indignado. Leu que entre os ministros do atual governo nacional-populista italiano, o mesmo que se nega a receber barcos de refugiados, há quem acredite em discos voadores e equações nas quais menos impostos e aumento de gastos resultam na diminuição da dívida.

Só nos espantamos quando já é tarde. Achamos que está tudo bem até crianças serem separadas dos pais ao atravessar ilegalmente a fronteira, como se tudo o que Trump tivesse representado até então não nos permitisse ver em seu ato uma decorrência natural e coerente de sua eleição. 

Resistimos a unir as duas pontas, a eleição de Trump à separação de pais e filhos, como se esta fosse um desvio condenável, como se uma não conduzisse à outra, como se ninguém tivesse culpa de nada.
Meu amigo está quebrando a cabeça para compor sua parábola admonitória. Como brandir nossa responsabilidade sem nos irritar de saída? 

Como explicar a nós, moradores de Ipanema e Leblon, zelosos de nossos privilégios, “forçados” a votar em Crivella, que uma vez basta? Meu amigo diz que viver num Estado de Direito, numa democracia onde os direitos individuais estão assegurados, é o maior privilégio pelo qual zelar. E que não vale a pena se enganar duas vezes se é para cometer o mesmo equívoco suicida.

Votou entre a cruz e a espada? Sério? Meu amigo quer dar às coisas o nome que elas têm de verdade. Daí a ideia de um conto moral a ser publicado antes das eleições. 

Seu problema agora é evitar que a descrição irônica do inadmissível seja lida como endosso. Ele me pergunta o que acho de dar ao conto o título “Reiniciar”. Quer saber se percebi a ironia, mas parece não entender que já não há palavra capaz de comunicar o que não se quer ouvir.

Fonte: FOLHA

comentários

Estúdio Ao Vivo