08 de julho de 2018 às 02:00

Perdidos na matemática: físicos e filósofos devem conversar?

Será que físicos trabalhando em assuntos relacionados à origem do universo estão perdidos em devaneios metafísicos que pouco têm a ver com a realidade? Como lidar com a possibilidade de que todas as forças da natureza sejam, na verdade, uma só? 

Será que físicos trabalhando em assuntos relacionados à origem do universo estão perdidos em devaneios metafísicos que pouco têm a ver com a realidade? Como lidar com a possibilidade de que todas as forças da natureza sejam, na verdade, uma só? 

Continuo hoje a conversa que tive com a física e autora Sabine Hossenfelder, que acaba de publicar o livro "Perdidos em Matemática: Como a Beleza Leva a Física na Direção Errada", nos EUA.

O livro oferece uma crítica ferrenha a essa linha de pesquisa, especialmente porque certas hipóteses que estão sendo propostas não podem ser verificadas por meio de experimentos. Isso vai contra a física tradicional, na qual uma hipótese precisa ser testável para ser aceita como útil na descrição de um fenômeno. Sem isso, como ter confiança de que a hipótese descreve a natureza e não uma fantasia qualquer?

Semana passada, Sabine explicou porque tem interesse em gravitação quântica e porque se preocupa com o que os físicos estão fazendo nessa área. Eis a segunda parte de nossa conversa, que trata mais especificamente sobre a intersecção entre física e filosofia.

Existe uma divisão profunda na entre os físicos (ao menos entre aqueles mais interessados ) com relação à incorporação de hipóteses não testáveis para ajudar no avanço da pesquisa. Alguns acham essa metodologia essencial, enquanto outros pensam que isso é um grande erro. Por que essa cisão existe? Algo semelhante já aconteceu na história da física? Essa crise tem solução?

Se uma hipótese não é testável, não é ciência. Não entendo porque temos que perder tempo discutindo isso. Não sou uma historiadora da ciência, mas não acredito que algo assim tenha ocorrido antes. Claro, cientistas já acreditaram no que não podiam testar em uma dada época (por exemplo, o elã vital como fonte de vida). Mas ao menos até agora tínhamos um acordo de que se você começa a falar sobre crenças não testáveis, você está praticando religião e não ciência.

Por que cientistas fazem isso? Porque podem. Porque quanto mais baixo forem os padrões para aceitação de suas novas hipóteses, mais fácil é produzir artigos.

Não sei se precisamos acabar com essa divisão. Mais importante é clarificar onde está a linha divisória. Se pessoas querem passar suas vidas inventando hipóteses que não podem ser testadas e medidas, o problema é delas (se bem que acho essa opção um tanto estúpida). Só não quero ver essas pessoas saindo por aí afirmando que estão fazendo ciência quando na verdade não estão.

Costumo classificar o estado atual da física teórica como uma guerra tribal. Como você sabe, também escrevi um livro sobre esse tema, "Criação Imperfeita", no qual critico o uso do conceito de beleza como princípio de verdade, caracterizando-o como perigoso. A natureza não liga para as nossas noções estéticas. Você pode nos dar alguns exemplos onde o uso desse tipo de estética na pesquisa causa confusão e erros?

Queremos saber o que é a matéria escura, se trata-se de uma nova partícula e, se for o caso, qual é; ou, se não for, se precisamos modificar a teoria que temos da gravidade (a teoria geral da relatividade de Einstein).

A maioria absoluta das teorias propostas até agora sugere novas partículas baseadas nesse ideal abstrato de beleza. Nenhuma dessas partículas foi descoberta. Por outro lado, modificar a teoria da gravidade não é uma alternativa considerada viável porque não é tida como bela. Por isso, essas teorias têm recebido pouca atenção.

O importante aqui é que as teorias propostas pelos físicos influenciam os experimentos que são elaborados. É por isso que décadas de busca por partículas de matéria escura não produziram nada. Claro, isso não significa que essa partícula não existe â?”talvez seja encontrada amanhã.

Mesmo assim, sabemos que essa partícula não é a que seria esperada. Isso deveria fazer você se perguntar: se todas essas expectativas e previsões até agora não produziram nada, por que devemos acreditar nos que continuam insistindo que temos boa chance de encontrar essas partículas num próximo experimento?

Esse é um exemplo. Outro é a teoria quântica da gravidade, a teoria que falta para ligar o espaço e o tempo com a teoria quântica. Até agora, as teorias são essencialmente baseadas em argumentos matemáticos. Isso gerou várias alternativas, sem ligação com testes experimentais. Eu acho absolutamente chocante que tanta energia tenha sido gasta gerando teorias que, até uma década atrás, não tinham qualquer ligação com testes experimentais.

Isso está mudando aos poucos, mas a maioria das bolsas de pesquisa continua indo para essas especulações matemáticas, e não para investigações que tentam testar a gravidade quântica experimentalmente.

Num mundo ideal, como você vê o futuro da pesquisa em física de partículas e cosmologia?

Primeiro, devemos entender o que aconteceu. Sabemos que a vasta maioria dos artigos publicados nessa área nas últimas décadas não têm qualquer relação com a natureza. Mesmo que seja normal que a maioria das especulações teóricas estejam erradas, o que não é normal é gastar tanto tempo explorando detalhes de ideias prematuras.

Especificamente, gastamos uma quantidade enorme de tempo e de dinheiro e, com isso, provavelmente deixamos de explorar caminhos mais promissores. Essas áreas de pesquisa precisam de critérios mais eficientes para o desenvolvimento de teorias; quais são eles é algo que os especialistas têm que decidir.

Você tem esperança de que vai haver uma reconciliação? Será que esse tipo de conflito acaba sendo produtivo?

Perdi a esperança de que esses grupos vão voluntariamente mudar de ideia. Apenas a pressão do público (através de mudanças no financiamento da pesquisa) pode mudar algo no que é considerado popular ou produtivo.

Você atribui essa “miopia” ao grupo “perdido na matemática” como sendo produto de um treinamento profissional baseado exclusivamente em técnicas matemáticas, sem qualquer reflexão filosófica sobre o contexto da pesquisa? Você acha que físicos devem aprender filosofia?

Diria que existe, sim, uma falta de introspecção, e que isso é causado em parte pela pressão em publicar artigos. Você não precisa ser um historiador ou filósofo para entender que noções de beleza não são critérios confiáveis para a compreensão de fenômenos naturais. De vez em quando, é importante dar uma parada e refletir se o que você está fazendo é bom para a ciência, e não apenas para a sua lista de publicações.

Quanto à questão de físicos aprenderem ou não filosofia, acho a divisão de trabalho entre as duas áreas importante e desnecessário que físicos façam isso. Por outro lado, físicos que trabalham em áreas próximas da filosofia deveriam buscar o conselho de filósofos, seja através de workshops ou colaborações, ou mesmo indo tomar um café juntos.

A questão de como cientistas devem prosseguir com o desenvolvimento de suas teorias quando têm pouco ou nenhum dado experimental para guia-los precisa de insights de filósofos. Infelizmente, os canais de comunicação entre físicos e filósofos não estão funcionando muito bem no momento.

Fonte: FOLHA

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