03 de junho de 2018 às 02:00

Sempre encontro salvação quando leio Drummond, diz Armando Freitas Filho

Carlos Drummond de Andrade chegou a mim pela via oral em 1956. O presente de aniversário do meu pai nesse ano foi um disco do selo Festa, o primeiro da coleção criada por Irineu Garcia.

Carlos Drummond de Andrade chegou a mim pela via oral em 1956. O presente de aniversário do meu pai nesse ano foi um disco do selo Festa, o primeiro da coleção criada por Irineu Garcia.

Do lado A, Manuel Bandeira; do B, Drummond. Engraçado que eu não pedi a ele esse presente. Estava mais perto do Fluminense, do jogo de futebol na rua, na praia, na mesa de botão. Afinal, a primeira coisa que fui na vida foi Fluminense. Agora mantenho a paixão, com um certo respeito pelo Vasco, time de Drummond.

Comecei a ouvir o disco pela face A e me maravilhei, de pronto, com a poesia de Bandeira. Que coisa fina, que coisa linda! Tocava sem parar, trancado no quarto, como se ouvisse um segredo. Nem pensei no lado B por pelo menos um mês.

Um belo dia fui ouvir o outro lado do disco, como que guiado por Bandeira. O efeito foi o de uma bomba: era incompreensível e, no entanto, eu sentia em alguns relances que ele falava das minhas coisas mais secretas. Não precisava trancar a porta, ninguém entendia nada daquela poesia inesperada, monstruosa, que precisava ser decifrada. Em verdade, Drummond é que me conhecia e não eu a ele. 

Eu era aquilo que fui conhecendo aos poucos e até hoje, aos 78 anos, quando estou perdido e só, abro seus livros e sempre encontro alguma salvação. É a minha Bíblia pagã, com o mesmo peso.

“Fazendeiro do Ar & Poesia Até Agora”, de Drummond, junto com “Poesia”, de Manuel Bandeira, foram os dois livros que ganhei logo depois, quando passei da via oral para a via escrita. A sensação que tinha misturava êxtase e incompreensão. Os textos pediam leitura e releituras atentas para serem compreendidos satisfatoriamente. 

Nunca disse nada aos meus chapas de futebol. Soube, muito mais tarde, que Vinícius de Moraes também agiu assim: poesia era coisa de mulher e, naqueles tempos, dele e meu, não pegava bem.

Em 1963, acompanhado do meu pai, estive na livraria São José com o monstro sublime â?”Carlos Drummond em carne e ossoâ?” para entregar meu primeiro livro, “Palavra”, cuja epígrafe drummondiana era “Palavra, palavra/ (digo exasperado)/ se me desafias,/ aceito o combate”. 

Fiquei mudo enquanto os dois conversavam sobre como a Semana de Arte Moderna tinha acontecido aqui no Rio de Janeiro. Saí com o seu livro “Lição de Coisas” autografado generosamente.

Minha admiração por Drummond veio crescendo com os anos. Sua poesia me explicava por dentro e por fora. Cheguei a fazer imitações de certos poemas, como “Morte no Avião”, para sentir se minha mão poderia escrever algo notável, se poderia escrever, por exemplo, “caio verticalmente e me transformo em notícia”.

“Fazendeiro do Ar” era e continua sendo meu livro base. Encontro nele, sempre em nível de excelência, a dor e o amor da existência e da humanidade. Tudo acompanhado da música da sua alta poesia, que aumentava a sua escuta certeira e inolvidável com o passar do tempo. A experiência de lê-lo não servia apenas à arte poética, mas à literatura inteira.

Quando Drummond morreu [1987], entrei na capela do São João Batista à noite para o velório, antes do corpo, e vi que o funcionário tinha cravado, no quadro de veludo negro, Drummond com um só “M”. Mais do que depressa, corri para corrigir o lapso, rezando para encontrar na caixa de letras outro “M”. 

Como deixar sair com erro ao lembrar do certeiro “Adeus composição que um dia se chamou Carlos Drummond de Andrade”? 

No dia seguinte, entrei no cemitério de braço dado com Hélio Pellegrino; nem sei quem segurava o tremor do outro. Então um jovem repórter, Arthur Dapieve, veio ao nosso encontro e nos pediu uma frase sobre o poeta. Seguimos à risca. Hélio, com sua verve inalcançável, disse: “Eu não me entenderia direito na vida sem a poesia dele”. E eu falei: “Drummond é maior que o Brasil”. 

Para nossa surpresa, no vestibular de uns anos depois, essas frases foram temas de redação.

Pensando bem, o poeta não deu adeus nenhum. Ele está entre nós, eterno, de ferro, sentado num banco à beira-mar tendo ao seu redor seus leitores permanentes. E quando voltamos a seus livros, parece que é a primeira vez.

Armando Freitas Filho, um dos mais importantes poetas brasileiros, é autor de "3x4", "Fio Terra" e "Rol".

Fonte: FOLHA

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