10 de junho de 2018 às 02:00

Tendência de peças com temporadas curtas abala relação com o público

São Paulo, mais do que qualquer outra capital brasileira, vive uma efervescência de atividade teatral: são mais de 200 estreias e reestreias por ano. Mas essa realidade mascara um fenômeno moderno: o encurtamento das temporadas.

São Paulo, mais do que qualquer outra capital brasileira, vive uma efervescência de atividade teatral: são mais de 200 estreias e reestreias por ano. Mas essa realidade mascara um fenômeno moderno: o encurtamento das temporadas.

Na programação intensa dos teatros da cidade, é cada vez mais comum que as peças façam duas ou três apresentações semanais, por um período de seis semanas, perfazendo um total de 12 a 18 exibições.

Isso tende a corromper o tempo de redescoberta dos artistas no encontro da obra com o público, algo que é inerente à cultura teatral. Além disso, limita o fenômeno do boca a boca, estreitando ainda mais a margem para a recepção crítica do trabalho. A natureza efêmera do teatro converte-se, perigosamente, no modo de produção resignado à brevidade.

Outro impacto é inviabilizar que tais produções sejam consideradas para o Prêmio Shell de Teatro, o mais relevante do país. Salvo algumas exceções, o regulamento exige que as comissões indiquem peças que realizem ao menos 20 apresentações (não necessariamente consecutivas) em São Paulo e no Rio.

Isso tem acontecido sobretudo no segmento mais permanente e inventivo dessa arte: grupos voltados à pesquisa continuada em atuação, dramaturgia e encenação. Vamos a dois exemplos.

A Cia. Livre, fundada em 2000 por Cibele Forjaz e com sede num galpão na Barra Funda, apresentou seu trabalho mais recente, "Revoltar - Memória de Ilhas e Revoluções", com direção de Vinicius Torres Machado, em apenas 12 sessões no Centro Cultural São Paulo, em noites alternativas de terças e quartas-feiras.

"Odisseia", da Cia. Hiato â?”que desenvolve projeto de investigação artística desde 2008â?”, acaba de estrear no Sesc Avenida Paulista, onde ficará até 8 de julho. O trabalho do grupo, uma jornada de quatro horas e meia que explora a aproximação de trechos do épico de Homero a narrativas pessoais dos atuantes, só poderá ser visto em 18 ocasiões.

A adesão à célere rotatividade pode ser resultado da alta demanda por palcos para um grande número de produções, inclusive em nível nacional. Aliás, capitais como Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Florianópolis e Porto Alegre vivem situação pior: raramente contam com temporadas para além de três semanas.

Apesar desse panorama, a cidade de São Paulo mantém, desde 2002, o Programa Municipal de Fomento ao Teatro, centrado em criações resultantes de pesquisa (são cerca de R$ 16 milhões/ano para até 30 grupos).

É o que permite à Cia. de Teatro Os Satyros ficar quase sete meses em cartaz com uma de suas produções recentes, "O Incrível Mundo dos Baldios", que iniciou a temporada com cinco sessões semanais, agora reduzidas para três.

A precarização da temporada reflete também o alheamento de parte dos artistas, grupos, produtores e gestores quanto à relação com o público em seus modos de criar, produzir e programar.

Nos anos 2000, a Secretaria Municipal de Cultura implantou a ocupação dos teatros distritais por grupos como a Fraternal Cia. de Artes e Malas-Artes (no teatro Paulo Eiró, em Santo Amaro) e a Cia. Estável de Teatro (no Flávio Império, em Cangaíba), cujos resultados artísticos e comunitários foram notáveis. A ideia foi, infelizmente, apagada pelas gestões seguintes.

Os grupos subsidiados por recursos públicos são, obviamente, os que mais sentem o reflexo da crise econômica com o achatamento ou a descontinuidade de editais, como o Prêmio Myriam Muniz, da Funarte/MinC, para montagem e circulação em nível federal.

A situação é ainda mais dramática com a redução das temporadas e perda significante da receita de venda de ingressos.

Quando o Grupo Tapa chegou ao Teatro Aliança Francesa, em 1986, para uma das ocupações artísticas mais bem-sucedidas da história do teatro brasileiro (durou 25 anos), a montagem de "O Tempo e os Conways", protagonizada por Beatriz Segall, podia ser vista em sessões diárias às quartas, sextas e domingos e duplas às quintas e sábados. Sete sessões semanais de um grupo vindo do Rio para viver de bilheteria em São Paulo.

Hoje, o financiamento pela isenção fiscal via Lei Rouanet permite às produções prescindir da venda de ingressos, uma vez que uma margem de lucro já está consideravelmente garantida pelo patrocínio. Mas há exceções.

Jô Soares ficará em cartaz, no Tuca, com sua nova peça, "A Noite de 16 de Janeiro", da russo-americana Ayn Rand, por excepcionais oito meses, com sessões de sexta a domingo. E talvez haja razão para isso.

Cria do teatro, Jô assistiu à primeira montagem dessa peça em 1949, no Teatro Brasileiro de Comédia, com Paulo Autran e Nydia Licia no elenco. Era a época em que o TBC dava seus primeiros passos históricos no Bixiga, fruto de uma geração que pactuava com o espectador a valoração de sua arte de terça a domingo.

Nesse novo cenário, em que espetáculos ziguezagueiam para cumprir um segundo ou, quem sabe, um terceiro mês de temporada em diferentes endereços, algo se esvai dessa relação de troca entre artistas e público. 

Valmir Santos, jornalista e mestre em artes cênicas pela USP, é crítico teatral.

Fonte: FOLHA

comentários

Estúdio Ao Vivo