10 de junho de 2018 às 02:00

Tentativas de submeter representação artística a consenso são canhestras

O obituário de Philip Roth publicado no jornal The New York Times incluía uma declaração surpreendente do escritor: ?Updike e Bellow iluminaram com sua lanterna o mundo que está aí. Eu cavei um buraco e acendi a lanterna?. 

O obituário de Philip Roth publicado no jornal The New York Times incluía uma declaração surpreendente do escritor: “Updike e Bellow iluminaram com sua lanterna o mundo que está aí. Eu cavei um buraco e acendi a lanterna”. 

Sem desmerecer os dois colegas nomeados, expoentes incontestáveis da literatura americana do século 20, a declaração supõe que haja mais de um tipo de realismo.

É difícil ignorar, além disso, a conotação sexual da metáfora, ainda mais num escritor como Roth, cuja obra está traspassada pelo desejo e pelo dilema de personagens cujo desejo (o que lhes dá vida) também os põe em desacordo com o mundo ao qual pertencem.

Duas concepções diversas de realismo se desenham na comparação. Uma corresponde ao mundo que vemos, onde nos reconhecemos; a outra é tão mais realista quanto se deixa atravessar pela experiência do real e do imponderável, em busca do que não vemos ou não queremos ver, do que nos contradiz ou nos desagrada, e que às vezes é insuportável. 

Nesse sentido, a aclamação quase consensual de Roth, a despeito dos escândalos iniciais e de uma ou outra controvérsia, é não só bem-vinda como surpreendente.

James Baldwin, mestre em se contrapor aos consensos e às convenções, escreveu, em 1962: “A realização de nossas ações está no que não vemos. (...) A conquista do mundo físico não é o único dever do homem. Ele também está intimado a conquistar a região selvagem de si mesmo. O papel do artista é iluminar essa escuridão”.

A região selvagem nada mais é do que o desejo: “Todos nós temos medo das forças internas que ameaçam perpetuamente a nossa precária segurança”. O papel do artista é não nos deixar virar o rosto quando deparamos com os “estados extremos”.

O preceito cria um problema não só para o consumo tranquilo da cultura submetida à lógica da oferta e da demanda, como para a própria ideia de pertencimento e identidade. 

Militante negro e gay, Baldwin escreveu que “nada é estável sob o céu”. O que o fazia lutar pelas identidades também lhe permitia desconfiar delas. 

A singularidade radical do artista negro e gay, com tudo o que pode haver aí de experiência de exclusão, incompatibilidade e desconforto, garantiu-lhe o que hoje pode soar paradoxal às lutas identitárias: a distância necessária para desconfiar das convenções, das certezas e das tradições que vendem a ilusão de terem sempre existido â?”e das identidades que nelas se baseiam.

Há pouco mais de um ano, assisti em Berlim à apresentação de uma professora que analisava, à luz dos estudos pós-coloniais, as obras de Baldwin e de um artista africano cujo nome já não lembro. 

A obra do artista lhe caía como uma luva. Cada elemento das esculturas alegóricas correspondia, como uma ilustração, a um aspecto do discurso acadêmico que as antecedia: opressão colonial, opressão da mulher etc. 

O mesmo já não se podia dizer dos textos de Baldwin. Havia sempre um momento em que a professora se via obrigada a explicitar suas reservas (“aqui já não posso segui-lo”), sem conseguir encaixar a liberdade de pensamento do autor nos moldes do seu discurso.

O desejo transborda e, assim como a morte, escapa à razão. É o que está por trás da experiência da grande arte. 

E o que torna tão mais canhestras as tentativas de submeter as representações artísticas a algum tipo de consenso ou regra previamente concebida, por mais inovadora que pareça.

No quarto e último volume da sua “História da Sexualidade” (“As Confissões da Carne”, publicado este ano na França), Michel Foucault expõe os mecanismos usados pelo cristianismo primitivo e medieval para ganhar jurisdição sobre a vida íntima dos indivíduos e dos casais.

A confissão foi o principal deles, mas para que o controle da intimidade tivesse efeito de lei, era preciso distinguir o sexo do desejo, opor a vida regrada ao descontrole, o sexo moderado do casamento à devassidão do desejo.

É interessante que, ao contrário dos movimentos de emancipação de gays e lésbicas, insuflados pela afirmação do desejo, os discursos identitários atuais tendem a incriminá-lo na defesa de gênero. 

Pode ser apenas uma estratégia passageira e necessária no combate aos abusos sexuais, a etapa inicial de uma luta inédita e bem-vinda pela defesa dos direitos individuais e da igualdade, mas também pode ser mais do que isso: a armadilha de um mundo idealizado com base numa contradição infantil, pois a incriminação do desejo encobre a vontade onipotente de banir da vida o incontrolável que a define e, da arte, o real que a engrandece.

Fonte: FOLHA

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