14 de maio de 2018 às 13:58

Trajetória de Roberto Farias ilumina a complexidade do cinema brasileiro

A trajetória de Roberto Farias, que morreu nesta segunda (14) no Rio, aos 86 anos, ilumina, como poucas, a complexidade e as contradições do cinema brasileiro nos últimos 70 anos.

A trajetória de Roberto Farias, que morreu nesta segunda (14) no Rio, aos 86 anos, ilumina, como poucas, a complexidade e as contradições do cinema brasileiro nos últimos 70 anos.

Formado na escola do cinema popular, Farias entra para a Atlântida em 1951 como assistente de direção. Seis anos depois assina seu primeiro filme, “Rico Ri à Toa”, uma produção da Brasil Vita Filmes com Zé Trindade no papel principal. Farias vive a decadência da chanchada, de que é sintomático seu “Um Candango na Belacap” (1960).

Nesse momento, Roberto já busca novos caminhos. Sintonizado com o cinema dos anos 1950, volta-se ao filme policial, do qual se torna um dos grandes artesãos brasileiros com “Cidade Ameaçada” (1960) e, sobretudo, “Assalto ao Trem Pagador” (1962).

A sintonia com o cinema popular acentua-se ao longo daquela década dominada pelo cinema novo. Farias toma o contrapé desse movimento. Dirige primeiro a comédia “Toda Donzela Tem um Pai que É uma Fera” (1966) e produz entre 1968 e 1971 a trilogia do cantor Roberto Carlos (“R.C. Em Ritmo de Aventura”, “R.C. e o Diamante Cor-de-Rosa”, “R.C. a 300 Quilômetros por Hora”).

Era sócio, na época, da produtora R.F. Farias, junto com os irmãos Reginaldo e Riva. Como produtor lançou, entre outros, a carreira na direção de Reginaldo Faria, até então conhecido apenas como ator, com “Os Paqueras” (1969).

Até o engajamento de Roberto foi francamente ligado a um cinema voltado ao grande público. Em meados dos anos 1970, no entanto, Farias assume a direção geral da Embrafilme, num momento de aproximação entre a tradição do cinema popular e os cineastas oriundos do cinema novo.

Tem início então talvez o momento mais bem-sucedido da estatal. Farias instaurou a política da “qualidade internacional”, que talvez tenha funcionado mais internamente do que outra coisa. Ao mesmo tempo em que associava a tradição do cinema novo à busca por um público amplo, a distribuidora deva sequência a uma fértil associação com Os Trapalhões, que garantia a possibilidade de outros filmes, de menor alcance, conseguirem distribuição decente.

Após deixar o cargo, já no período da “abertura”, Farias lança-se talvez a sua mais ousada aventura: “Pra Frente, Brasil”, de 1982. Talvez a abertura não fosse assim tão aberta, o certo é que esse filme em que a tortura é exposta com todas as letras, talvez no filme mais popular que jamais tocou no assunto, terminou gerando a demissão do então diretor geral da empresa, Celso Amorim.

Apesar dos problemas, o filme alcançou boa repercussão ao ser lançado. Independentemente dos problemas políticos, Roberto Farias deu-se conta de que era do cinema popular chegava ao seu final. Depois de uma última comédia, “Os Trapalhões no Auto da Compadecida” (1987), aliás um dos principais filmes do conjunto, Farias dedicou-se essencialmente à televisão: o novo veículo de difusão de uma arte popular se impusera enfim ao cinema.

Apesar disso, Roberto Farias permaneceu ativo como produtor e também nas discussões sobre o ressurgimento do cinema brasileiro, golpeado pelo fechamento da Embrafilme, em 1990, no primeiro dia do governo Collor.

Fonte: FOLHA

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