10 de junho de 2018 às 02:00

'Uma pintura de Rubens me ensinou o que é ser um artista', diz Vik Muniz

Em 1986, eu vivia um momento de imensa incerteza em Nova York. Meu visto já havia caducado há mais de quatro anos, minha ambição de estudar teatro não teve o êxito esperado e eu, por ser ilegal, vivia de trabalhos informais e mal remunerados. 

Em 1986, eu vivia um momento de imensa incerteza em Nova York. Meu visto já havia caducado há mais de quatro anos, minha ambição de estudar teatro não teve o êxito esperado e eu, por ser ilegal, vivia de trabalhos informais e mal remunerados. 

Minha curiosidade e vontade de aprender só me deixava mais ansioso. O mundo da arte, dos espetáculos, da criatividade e da mente â?”o mundo em que eu sonhava viverâ?” tornava-se cada vez mais distante e inatingível. 

Nos parcos intervalos ociosos, eu frequentava grupos literários, visitava museus, bibliotecas e jardins. O que me interessava era observar a movimentação das pessoas nesses espaços que funcionam como portais para outras realidades. Quem visita esses lugares procura possibilidades de existência. 

Minha experiência não era tão diferente. Muito embora não tivesse decidido mover a minha vida em nenhuma direção específica, eu sabia muito bem das coisas que atraíam o meu espírito. 

Foi numa dessas visitas que um objeto específico mudou completamente a minha visão do que fazer com o pouco de discernimento artístico que cultivara através dos anos.

Naquele ano, o Metropolitan Museum montou uma grande exposição intitulada “Liechtenstein, The Princely Collection”. Havia obras de grandes dimensões do século 17 que, embora tratassem de temas precisos, ofereciam um enorme repertório de temas pertinentes à sua época: mitologia, política, paganismo, erotismo, beleza, obesidade e virtude. 

Meu perambular pela mostra me fez meditar sobre a relação entre o artista visual e seu público. As pessoas trocavam de posição para observar detalhes particulares, numa espécie de caça dentro da imagem, como quem “zapeia” canais em uma televisão. As alegorias expressas nas pinturas ofereciam uma estranha taxonomia ao espectador, como se quisessem dizer tudo em uma frase.

Vistas à luz da mídia de hoje, essas pinturas me pareciam simultaneamente contemporâneas e obsoletas. Estavam conectadas demais à realidade de um certo mundo para figurá-lo, efetivamente, como algo além de um inventário de coisas e assuntos a serem consumidos. Esta era a relação entre a arte e a publicidade que me mantinha longe da ideia de me tornar artista. 

Enquanto seguia o itinerário da exposição, observando mais as pessoas do que os quadros, encontrei outra dinâmica visual. Havia um grande número de telas do pintor Rubens (1577-1640) e, numa sala menor adjacente às principais galerias, reparei que as pessoas, sem nenhuma orientação prescrita, formavam fila única para ver uma determinada obra.

Entrei na fila sem saber o que veria e, quando chegou a minha vez, deparei-me com algo realmente surpreendente. Captada com um olhar fixo e intemporal, Clara Serena, a filha de Rubens, aos cinco anos e ligeiramente estrábica, saltava da diminuta moldura barroca como se me convidando para brincar. 

O grande artista havia conseguido retratar um rosto extremamente conhecido sem ignorar nenhuma das assimetrias que, em geral, relevamos ao retratar faces muito familiares. 

Rubens fez a boca e o nariz ligeiramente tortos, assim como a dobra do queixo, com rigor técnico, mas sem apagar os traços de afeto e amor que tinha pela filha. E é isso que faz desta obra incrível algo de extremamente pessoal e ao mesmo tempo universal. 

As pessoas paravam em frente à tela como se orientadas por uma marca no chão, no ponto exato em que podiam transpor a superfície da obra para apreender o retrato da menina. Aquele lugar perfeito onde uma combinação de pigmentos e óleo encarnava a alma e a imagem de um anjo; o momento tenso de transformação, quando a bola já deixou as mãos do jogador de basquete e ainda não alcançou o aro; o segundo que antecede um primeiro beijo; o puro sublime. 

Várias vezes, retomei meu lugar na fila para alcançar essa linha demarcatória. Meu corpo balançando para frente e para trás, oscilando entre a percepção quase tangível da linda menina e a vulgaridade mágica das texturas e cores dos materiais, da pintura física.

Quando o museu fechou, voltei para casa e comecei a desenhar. Só que pela primeira vez na minha vida eu estava desenhando para o indivíduo e para a sociedade. Essa pequena pintura de Rubens me ensinou o sentido do que é ser um verdadeiro artista.

Vik Muniz é artista plástico.

Fonte: FOLHA

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